Capa das páginas do curso

Módulo 2 | Vigilância Vetorial e aspectos ecoepidemiológicos

Aula 1

Principais espécies de flebotomíneos e ciclo biológico do vetor

Espero que sua jornada pelo Módulo 1 tenha sido enriquecedora. Caso esteja começando diretamente por aqui, não tem problema! Você pode explorar os conteúdos no seu ritmo e da forma que for mais conveniente.

Neste módulo, vamos aprofundar nosso conhecimento sobre a vigilância vetorial e os aspectos ecoepidemiológicos das leishmanioses. Vamos discutir a biologia do vetor, os principais reservatórios, a distribuição geográfica das diferentes espécies de Leishmania e os fatores ambientais que influenciam a transmissão da doença. Além disso, veremos como as ferramentas digitais podem contribuir para a identificação dos vetores e como a vigilância entomológica é essencial para o controle da leishmaniose.

Ao longo das quatro aulas deste módulo, você entenderá como a interação entre vetores, reservatórios e ambiente influencia a dinâmica da transmissão e quais estratégias podem ser adotadas para fortalecer a vigilância e o controle da doença.

Preparado(a) para seguir adiante e expandir seu conhecimento? Então, vamos começar!

OBJETIVOS:

Ao final desta aula, esperamos que você seja capaz de:

  • Identificar os principais reservatórios e hospedeiros da Leishmania e compreender sua relação com o ciclo epidemiológico;
  • Reconhecer as diferentes espécies de Leishmania e sua distribuição geográfica.

Introdução: Classificação das Espécies de Leishmania

O gênero Leishmania é definido como “protozoários parasitos da Ordem Trypanosomatida, Família Trypanosomatidae: heteroxênico, com promastigotas e paramastigotas (flagelo único livre) no trato digestivo do hospedeiro invertebrado (flebotomíneos) e amastigotas (sem flagelo livre aparente) no interior de células do sistema fagocítico mononuclear dos hospedeiros vertebrados”. Até onde sabemos, os hospedeiros invertebrados estão limitados a espécies de flebotomíneos e os hospedeiros vertebrados compreendem uma grande diversidade de mamíferos. Existem espécies de Leishmania que infectam répteis, mas essas nunca foram observadas infectando mamíferos, como o homem.

• Classificação e Evolução Taxonômica da Leishmania

A classificação de Leishmania foi inicialmente baseada em critérios clínicos, bio-eco-epidemiológicos, tais como relação com vetores, distribuição geográfica, tropismo tissular, propriedades antigênicas e as manifestações clínicas. No entanto, análises imunológicas, bioquímicas e moleculares mostraram que tais critérios eram muitas vezes insuficientes. Assim, outros aspectos, tais como análises por reatividade com anticorpos monoclonais (análise de serodemas), padrões observados por eletroforese de isoenzimas (análise de zimodemas) e diferentes métodos moleculares foram bastante utilizados para contribuir com a classificação das espécies de Leishmania.

Histórico das Descobertas

A primeira espécie de Leishmania descrita foi a Leishmania donovani, por Ross em 1903, na Índia. Essa descrição foi um marco na parasitologia, pois revelou o agente etiológico da leishmaniose visceral (calazar). Antes da descoberta, a causa da doença era desconhecida, o que dificultava o diagnóstico e o tratamento eficaz. Nesse mesmo ano foi descrita a primeira espécie associada à leishmaniose cutânea, a Leishmania tropica, no Oriente Médio. A identificação desses parasitos abriu portas para o entendimento do ciclo de vida desses organismos e das diferentes formas de leishmaniose. Essas descobertas foram essenciais para os futuros estudos sobre as leishmanioses, levando à identificação de outras espécies de Leishmania e à compreensão dos diferentes ciclos de transmissão e manifestações clínicas da doença. Em 1908, uma nova espécie foi descrita, a Leishmania infantum, associada também à leishmaniose visceral, mas aparentemente mais relacionada à infecção de jovens e crianças em regiões do Mediterrâneo, Ásia Central, norte da África e China, uma espécie que mais tarde apresenta uma grande relevância nos países das Américas.

1903

Leishmania donovani (Ásia e África Ocidental)
→ Primeira espécie de Leishmania descrita, identificada como agente etiológico da leishmaniose visceral (calazar).
Leishmania tropica (Oriente Médio e Norte da África)
→ Primeira espécie associada à leishmaniose cutânea.

1908

Leishmania infantum (Mediterrâneo, Ásia Central, Norte da África, China, América do Sul e Central)
→ Relacionada à leishmaniose visceral, especialmente em crianças e pessoas imunodeprimidas.
→ Tem como sinonímia a Leishmania chagasi, descrita por Cunha e Chagas, 1937.

1911

Leishmania (Viannia) braziliensis (Brasil)
→ Primeira espécie de Leishmania descrita nas Américas, associada à leishmaniose cutânea e mucosa.

1913

Leishmania (Viannia) peruviana (Peru)
→ Associada à leishmaniose cutânea localizada, endêmica na região andina peruana.

1954

Leishmania (Viannia) guyanensis
→ Relacionada à leishmaniose cutânea, presente na América do Sul e Central.

1972

Leishmania (Viannia) panamensis
→ Similar à L. guyanensis, faz parte do complexo L. guyanensis.
Leishmania (Leishmania) amazonensis
→ Associada à leishmaniose cutânea difusa. Presente em alguns países da América do Sul e no Brasil, ocorre principalmente em diferentes estados das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste (Mato Grosso e Mato Grosso do Sul).

1980

Leishmania (Leishmania) venezuelensis
→ Parasito com circulação mais restrita, encontrado na Venezuela.

1987

Leishmania (Viannia) lainsoni
→ Identificada em pacientes do estado do Pará, Amazonas, Acre e Rondônia, além de outros países da América do Sul, como Peru, Bolívia, Equador e Guiana Francesa.

1989

Leishmania (Viannia) shawi
→ Isolada de primatas e edentados na região amazônica brasileira, esporadicamente associada à leishmaniose humana em diferentes estados da região Amazônica.
Leishmania (Viannia) naiffi
→ Associada a infecções em tatus e encontrada em diversos países amazônicos, onde também pode infectar humanos e causar a leishmaniose cutânea.

2002

Leishmania (Viannia) lindenbergi
→ Identificada a partir de um surto em Belém, Pará, Brasil.

2015

Leishmania (Leishmania) waltoni
→ Espécie recentemente descrita, associada à leishmaniose cutânea na República Dominicana.

2023

Leishmania (Leishmania) ellisi
→ Nova espécie descrita nos EUA, causadora de leishmaniose cutânea.

Subgêneros da Leishmania e Distribuição Geográfica

Muitos esquemas taxonômicos, com diferentes classificações, já foram propostos para o gênero Leishmania, o que justifica a observação de nomenclaturas diversas em vários documentos. A classificação atual dos parasitos do gênero Leishmania agrupa esses parasitos em quatro subgêneros:

  • Leishmania (Leishmania)
  • Leishmania (Viannia)
  • Leishmania (Sauroleishmania)
  • Leishmania (Mundinia)

Algumas espécies não são classificadas nesses subgêneros e seu status taxonômico permanece em discussão; um exemplo são as espécies L. hertigi e L. deanei, que alguns autores consideram pertencer ao gênero Porcisia, mas a posição desse grupo como mais um subgênero dentro de Leishmania parece ser mais coerente. Estes subgêneros agrupam mais de 30 espécies reconhecidas do parasito Leishmania, sendo pelo menos 20 dessas patogênicas para humanos em todo o mundo. Aqui vamos nos concentrar nos parasitos que circulam nas diferentes regiões das Américas, com ênfase no Brasil e nas espécies que já foram associadas às leishmanioses em humanos.

A classificação em subgêneros é bastante aceita. Essa classificação teve como base principalmente o tipo de desenvolvimento dos parasitos no intestino do inseto vetor, mas foi respaldada por inúmeros trabalhos que empregaram metodologias bioquímicas e moleculares, incluindo o sequenciamento completo dos genomas de algumas das espécies de Leishmania.

Fonte: Campus Virtual Fiocruz

Espécies de Leishmania Neotropicais

A seguir, apresentaremos as espécies de Leishmania neotropicais associadas à doença humana, em ordem cronológica de descrição, com algumas de suas principais características.

• Subgênero Leishmania (Viannia)

Compreender parasitos autóctones das Américas é uma característica importante do grupo Subgênero Leishmania (Viannia). Existem alguns relatos de casos de leishmaniose causada por espécies desse subgênero em outros continentes, como na Europa, por exemplo, mas todos representando casos importados. Nesse grupo temos 8 espécies descritas, mas uma, a Leishmania (Viannia) utingensis, ainda não foi observada causando doença.

Clique aqui e baixe a lista com as características do Subgênero Leishmania (Viannia).

• Subgênero Leishmania (Leishmania)

Neste grupo estão classificadas várias espécies associadas à leishmaniose cutânea em diferentes continentes, mas duas espécies são importantes agentes etiológicos nas Américas, a L. amazonensis e a L. mexicana, e outras espécies menos relevantes no contexto da saúde humana também já foram descritas. Nesse subgênero também estão classificadas as espécies do complexo L. donovani, que são agentes etiológicos da LV. A seguir apresentamos as espécies válidas, até o momento, que estão classificadas nesse grupo e que são patógenos humanos.

Clique aqui e baixe a lista com as características do Subgênero Leishmania (Leishmania).

Ciclo Epidemiológico da Leishmaniose

O ciclo da leishmaniose é heteroxênico, o que significa que a doença depende de dois hospedeiros para seu ciclo de vida:

  • Vetores (flebotomíneos): As fêmeas de flebotomíneos (mosquitos-palha) são hospedeiros invertebrados dos parasitos e se infectam ao picar um reservatório ou hospedeiro vertebrado infectado (como, por exemplo, um roedor ou cão), transmitindo o parasito para outros hospedeiros ao se alimentar de sangue.
  • Hospedeiros Vertebrados: Diversos animais podem servir como hospedeiros vertebrados das diferentes espécies de Leishmania. Alguns são considerados reservatórios dos parasitos, enquanto outros são apenas hospedeiros, pois não apresentam papel na manutenção do ciclo de transmissão. Nos hospedeiros vertebrados, como mamíferos silvestres ou cães domésticos, o parasito se desenvolve em sua forma amastigota nas células fagocíticas. Quando o flebotomíneo pica um hospedeiro infectado, ele adquire o parasito na forma amastigota, que se transforma em promastigotas e se desenvolve em seu intestino e pode ser transmitido a outros mamíferos ou humanos.

Esse ciclo de transmissão é essencial para manter o parasito na natureza e garantir que o parasito e, consequentemente a doença, continue a se espalhar. Os reservatórios, por sua vez, têm um papel crucial, pois mantêm o ciclo da transmissão em diferentes ambientes, incluindo áreas urbanas e silvestres.

Espécie de Leishmania Reservatórios Principais Papel no Ciclo Epidemiológico
L. (V.) braziliensis Roedores silvestres e sinantrópicos Possível fonte de infecção para vetores.
L. (V.) guyanensis Preguiças e tamanduás Mantêm o ciclo de transmissão na floresta.
L. (V.) lainsoni Pacas Reservatório identificado na Amazônia.
L. (L.) infantum Cão doméstico Principal reservatório da leishmaniose visceral urbana.
L. (L.) amazonensis Marsupiais e roedores silvestres Hospedeiros que garantem a manutenção da doença em áreas florestais.
Gotas

Conclusão

Nesta aula, aprofundamos o conhecimento sobre os reservatórios da Leishmania e sua relação com o ciclo epidemiológico da doença. Exploramos como diferentes espécies de mamíferos, como roedores, cães, pacas, preguiças e tamanduás, atuam na manutenção da transmissão, seja em ambientes silvestres ou urbanos. Também analisamos a classificação taxonômica das espécies de Leishmania, destacando as principais diferenças entre os parasitos presentes no Brasil e nas Américas.

Compreender o papel dos reservatórios e hospedeiros é essencial para fortalecer as estratégias de vigilância e controle das leishmanioses. As ações de prevenção devem considerar não apenas os vetores transmissores (flebotomíneos), mas também os animais que servem de fonte de infecção para esses insetos.

Na próxima aula, estudaremos a vigilância entomológica, focando na identificação e no monitoramento dos flebotomíneos, vetores responsáveis pela transmissão da leishmaniose. Além disso, veremos como ferramentas digitais podem auxiliar na identificação dessas espécies e no planejamento de ações de combate à doença.

Até a próxima aula!

• Exercício de fixação

Veja as afirmativas abaixo sobre os reservatórios da Leishmania e aponte aquela que apresenta informações corretas: